23.1.19

Tu

Não. Nem uma palavra. Para quê dizerem, exprimirem em palavras o que ambos sabiam? Nem uma palavra.
- Giovanni! - disse Rosabianca.
- Rosabianca! - disse Giovanni. Olharam um para o outro, felizes.
- Não ouvi uma única palavra do que os meus professores disseram hoje de manhã. Pensava em nós. Pensava em ti, Giovanni.
Em ti. A primeira vez que dizia: tu. Não tinham falado nisso, não tinham trocado impressões, qualquer coisa assim (e de que outra maneira havia de ser?): “Vamo-nos tratar por tu a partir de hoje?” Não. Nada. Apenas aquele tentilhão de voz gutural, a cantar, e o outro, a responder, lá em cima, entre a folhagem e as faixas isoladas do céu azul. E o pólen brilhante, caindo da flor que o vento agitou. O vento: Fazio soprando, os lábios encolhidos, as bochechas enormes.
- Pareces a menina da capa do Larousse - brincou Rosabianca, Não, nada. Apenas: “Não ouvi uma única palavra do que os meus professores disseram esta manhã. Pensava em nós, pensava em ti, Giovanni.” Apenas. E depois:
- Pensaste alguma vez em mim? - Inclinara a cabeça, desviara os olhos, e os cabelos desceram-lhe sobre a testa. E o seio esquerdo ficou mais alto do que o direito e avolumava-se nos limites firmes do vestido azul, atraindo os olhos de Giovanni; mas não mais do que o outro, quase escondido, invisível, dada a inclinação do corpo, menos tenso, menos agressivo, mas existindo, brando e puro. E também a saia que deixava o joelho nu, macio e redondo.
Tu. Tu pensaste.
- Sim... - Agora vai ser a primeira vez que dirá: tu.
- Sim, pensei em ti, Rosabianca. Em ti. - A segunda. a terceira, a quarta: - Em ti. Em ti. - Com a flor sem pólen afagou-lhe o joelho descoberto. Ela sentiu a carícia dos dedos de Giovanni transmitir-se através do caule e da flor pelos canais rasgados pela seiva. Respondeu:
- Em ti. Em ti. Tu. - Dirigia os olhos para as nesgas de céu azul, brilhando lá no alto. Os teus próprios dedos.
Por cima do vestido, fez deslizar as pétalas brancas pelo corpo da Rosa branca.
- Tu. - E sentia, através das pétalas, da corola, do cálice, do caule, que o corpo dela lhe entrava pelos dedos dentro. O corpo nu que ele vira, fazia uma semana.
Uma pinha caiu ali adiante.
- Tu - repetiu.
- Sabes, Giovanni? Diz-me: pensaste em mim só no passado ou também no futuro?
- No futuro, mulherzinha.
- No futuro.
Desenhou-lhe o peito com a flor e Rosabianca teve um imperceptível retraimento.
- Tu - limitou-se a dizer.
- Tu - respondeu ele muito baixo, como se fosse a primeira vez. E brandamente acariciou-lhe os lábios com as pétalas brancas.
Então jogou fora a flor; pegou com ambas as mãos nos ombros, subitamente mais pequenos, de Rosabianca, e beijou-lhe a boca.
- É bom dizer tu, é bom beijar-te.
- Sim - respondeu Fazio. - Não pensei em ti só no passado ou no presente, vi-te no futuro. No futuro, compreendes?
- No futuro.
- É bom beijar-te, é bom dizer tu, oh como é maravilhoso dizer tu, como é maravilhoso estar aqui!
- É bom.
- Tu - perguntou ele.
- Tu - respondeu Rosabianca.

[Augusto Abelaira, «A cidade das flores»]