22.1.19

As marcas dos lábios

Quando Františka não estava a ver, quando as sombras se alongavam ao fim da tarde, Sors esticava os lábios e via a sua sombra tocar (beijar) a sombra de Františka.

Quando Františka encostava os lábios ao vidro para o embaciar e depois escrever o seu nome, Sors, depois de ela sair, encostava os seus lábios ao mesmo pedaço de vidro embaciado com o nome dela. Um dia o pai dela entrou na sala quando ele beijava a janela. Quando Františka deixava um pedaço de comida, Sors trincava-o onde tinham estado os lábios de Františka. Mastigava beijos, dizia Sors. Engoliu inúmeros ao longo da vida. Bebia pelo mesmo copo que ela pousava. Beijava o mesmo cão, as mesmas árvores. Perseguia as pegadas dos lábios de Františka, as marcas das suas dentadas. Adorar (ad oris) significa, literalmente, levar à boca. Foi isso que Sors fez todos os dias da sua juventude.

[Afonso Cruz, «O pintor debaixo do lava-loiças»]